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Realidades, HQs e Jornalismos

as suas relações e a obra de Joe Sacco.

Ontem, vimos que a política envolvida no entretenimento popular, com o Obama aparecendo em um número do Homem-Aranha. Longe de ser um material de público restrito, as HQs podem elevar seu papel, e angariar tanto o entretenimento, como a denúncia de problemas reais. E esta forma de arte, cultura, entretenimento e comunicação pode se tornar ferramentas de jornalismo e de denúncia.

“Assim, com a porta aberta por estes quadrinistas inovadores nos anos 60, a indústria especializada em quadrinhos destinados a um público diferenciado, mais adulto e maduro do que os leitores regulares das HQs de super-heróis das grandes editoras, como DC Comics (casa de Superman e Batman) e Marvel Comics (casa do Homem-Aranha e Capitão América), cresceu cada vez mais com o tempo. Como sabemos, as HQs podem ser consideradas um meio híbrido, fecundo do textual e do imagético; a utilização de HQs para outros fins que ultrapassam o puro e inocente entretenimento acaba entrando em convergência com o jornalismo, mostrando que as HQs poderiam ser um possível meio de comunicação alternativo, que pode mostrar coisas que nem o texto ou a imagem podem fazer sozinhos. Aqui surgem dois grandes nomes: Art Spiegelman e Joe Sacco.” [Caio de Freitas Paes]

Um assunto que tem ganhado grande foco nestas duas últimas semanas é a questão da Palestina, presente em todos os jornais diários. Mas o conflito palestino-israelense e a precariedade na região da Faixa de Gaza são muito antigos. Joe Sacco, entre 1991 e 92, visitou a região e transformou sua experiência em quadrinhos, traduzindo suas sensações por meios imagéticos e textuais cheios de detalhes. Os relatos foram publicados no Brasil, em 2003 pela editora Conrad, a obra foi dividida em dois volumes: “Palestina: Nação Ocupada” e “Palestina: Na faixa de Gaza“.

O estudante de Jornalismo, Caio de Freitas Paes, escreveu sobre isso um artigo, “Palestina: Na Faixa de Gaza” – Quando o jornalismo e as histórias em quadrinhos convergem, tratando das questões acima citadas e analisando o material que Joe Sacco deixa a nossa disposição. Sacco na introdução do segundo volume de sua obra declara:

“Embora o último capítulo dessa série forneça uma espécie de fechamento para toda a história, a maior parte deste volume é dedicada às condições dos palestinos que vivem na Faixa de Gaza. Fiquei ali pouco mais de uma semana, em dois campos de refugiados, Nuseirat e Jabalia. Uma semana não é muito, mas esse período na Faixa de Gaza deixou uma forte impressão em mim, e espero que o material destas páginas deixe uma impressão forte em você. […] Muitos problemas estão aparecendo dentro da comunidade palestina. Será que a promessa de pluralismo será cumprida ou a “entidade” palestina que aparecer, seja ela qual for, continuará sendo uma autocracia? Como as autoridades palestinas vão lidar com conflitos internos? Será que os palestinos vão conseguir refrear a violência contra israelenses sem adotar os mesmos meios brutais dos antigos ocupantes? […] Este livro descreve a Faixa de Gaza que vi num passado não tão distante. Ao mesmo tempo que espero com sentimentos alternados de esperança e receio que futuras mudanças na vida dos habitantes de Gaza e de outros palestinos, é com tristeza que percebo que a situação continua dolorosamente igual.” [SACCO, Introdução. In: Sacco (org.) Palestina: Na Faixa de Gaza. São Paulo: Conrad Editora, 2003, p.13]

Abaixo, estão as impressões e conclusões de Caio Paes em seu artigo:

“Sacco é visto pelos palestinos como mais um jornalista estrangeiro que vem para Palestina escrever sobre o que acontece, mas até o momento de nada adiantaram essas inúmeras matérias investigativas feitas ao longo dos anos; e é por isso que toda vez que se encontra neste tipo de roda de conversa e desabafo sobre Israel, o quadrinho seguinte é sempre diminuto, focalizando o próprio autor sem resposta alguma para as sempre tão complicadas indagações que os palestinos o fazem (a cena acima detalhada não é diferente disso; no quadro seguinte Joe claramente envergonhado não dá nenhuma resposta a eles, sempre balbuciando uma ou outra desculpa para o fato de que o Ocidente não faz nada quanto a isso).”

“O próprio traço de Joe Sacco tem suas características muito divergentes do traço comum em histórias regulares de super-heróis mainstream, por exemplo. Sacco não deixa em nenhum momento de acrescentar ricos detalhes à HQ, porém seu desenho é um misto de caricatura com qualquer outro estilo extremamente detalhista. Todos os personagens com quem Joe se encontra durante a série são desenhados de forma que nós sabemos que são meras ilustrações, não com um traço foto-realístico como o de Alex Ross, por exemplo; porém, destoando dos demais personagens que cruzam seu caminho, Joe se desenha duma maneira totalmente caricata, cômica. Entretanto, isso não exclui a riqueza de detalhes que Joe Sacco captou em sua visita à Palestina, e conseguiu mostrar em maior número possível durante toda a série. Como já falado anteriormente, estas escolhas estilísticas do autor têm significados mais intrínsecos: o exagero, característica fundamental da caricatura, é utilizado para tentar amenizar um pouco o clima tenso e pesado que se observa por toda a HQ, o seu conteúdo cheio de tragédias e perdas nas vidas dos palestinos entrevistados por Joe Sacco. Tudo isso para mostrar a nós, leitores, as condições palestinas de vida na Faixa de Gaza;”

“Outro traço muito marcante por toda a obra é a falta de colorização dos desenhos. Historicamente, quando falamos de HQs, quando o autor (ou autores) escolhe(m) por não colorizar a obra, têm-se uma sensação de cru; inúmeras vezes estas obras com um conteúdo mais pesado, maduro e adulto, fazem esta escolha. Essas sensações todas estão no campo da primeiridade, aquele das primeiras impressões e sensações. Ao tentarmos encontrar os significados desta escolha de Joe Sacco ao não colorir “Palestina”, inevitavelmente chegamos à idéia que o autor quer passar a noção de seriedade e sobriedade, mostrar que o assunto não abre brechas para brincadeiras, não há espaço para cores radiantes e/ou felizes. Aliás, o formato escolhido por Joe Sacco (HQ) oferece um sem número de recursos estilísticos para se conseguir passar diversas impressões e interpretações ao leitor.”

“A primeira sensação que obtemos ao ver a cena é realmente de desespero e medo, devido ao índice que se forma pelos traços de Sacco para representar a intensidade da chuva e a fragilidade de um simples carro no meio de tudo aquilo. Agora, num nível mais profundo e implícito, levando-se em conta as informações dos boxes em conjunto com a cena em si, podemos perceber que Joe está passando a seus leitores a tensão pela qual os palestinos normalmente passam ao sair de noite nas ruas do acampamento, à mercê de abordagens de soldados israelenses ou quaisquer outros acontecimentos perigosos pelos quais eles possam passar.”

“Primeiramente, o índice que nos é passado é que Sacco é apenas claustrofóbico ou algo do gênero, que não gosta de ficar em espaços muito diminutos; porém, ao lembrarmos que a região onde o autor se encontra é constante alvo de atentados, e que eles normalmente acontecem em locais superlotados, e na própria obra Sacco ilustra vários ataques palestinos contra israelenses, fica implícito que ao estar no meio da multidão (condição que já o deixa temeroso), ele teme por um possível atentado a bomba, em secundidade.”

“Sacco, num primeiro e menos crítico olhar sobre a série pode parecer tendencioso aos palestinos; isto, porém, é renegado pelas várias vezes que Joe mostra em ouvir sempre as mesmas trágicas histórias (e cansar do povo palestino aparentar sempre “bater na mesma tecla”), além de ver muitos palestinos apoiando e estimulando atos terroristas/violentos contra os israelenses como um todo, numa clara prova de que violência não se responde com violência, ignorância não se responde com ignorância, (até porque a situação tensa e crítica se mantém há muito tempo, e não é vista uma possível solução ou acordo de paz entre os dois lados). Joe comprova que os israelenses realmente são um grande empecilho aos palestinos, entretanto, diversas vezes os palestinos são o maior empecilho aos palestinos.”

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